O motorista que gostava de ouvir repetições

Naquela manhã em que me sentei no autocarro da Carris, em Lisboa, assisti a uma cena que mudou o meu dia. E aquele episódio nunca mais me saiu da mente.

Tinha chegado cansada a Lisboa e ainda nem era meio dia. A viagem de autocarro da Covilhã para Lisboa é exasperante. Sai de Sete Rios e segui para outra paragem para apanhar outro autocarro para finalmente chegar a casa. Era uma segunda-feira e ainda estava no primeiro ano de mestrado. Naquele dia tinha aula às seis da tarde e estava tão mal-humorada por ter acordado cedo que só queria sossego e dormitar um pouco.

Mas os transportes públicos de Lisboa são tudo menos tranquilos. E sabia que me ia irritar ainda mais, mas isso já não era surpresa para mim. O que realmente se mostrou fantástico foi o que aconteceu a seguir. Entrei, passei o passe, disse bom dia ao motorista e sentei-me nos bancos atrás dos vermelhos, aqueles que são destinados a velhinhos, grávidas ou pessoas com algum tipo de deficiência.

No meio daquele barulho em que as vozes eram disparadas em várias direções, o meu olhar focava-se na paisagem. Alheia-me. Até que uma voz em particular se destacou. Uma voz que soltava palavras que não eram nem de amargura, nem de lamúria, nem de outra coisa qualquer. Olhei em frente e na primeira cadeira do autocarro, aquela que parece um trono por estar mais elevada que as outras, estava uma senhora com cabelos pequenos e grisalhos. Estava à conversa com o motorista:

– É assim, as meninas do centro de dia levam-me a sopa. Eu como metade e guardo a outra para a noite. Depois como o prato principal, não sei o que é hoje, e como a fruta. A fruta é muito importante!

– É verdade – respondeu o motorista – e o que é que faz depois?

– Olhe depois meto-me no autocarro. O passe é uma maravilha, leva-me a todo o lado – contava a senhora, na casa dos 60 e muitos anos – uma pessoa em casa não pode ficar, tem de apanhar sol. E é assim. Depois à noite chego a casa e como a outra metade da sopa, vejo um pouco de televisão e vou dormir.

– E para onde gosta de ir passear?

– Hã? – a pergunta do motorista parecia tê-la desconcertado.

– Quando apanha o autocarro, para onde gosta de ir? Gosta de ir ao jardim? – elaborou o condutor.

A senhora, por momentos, moveu levemente a cabeça, como confundida com aquilo que o condutor estava a perguntar. Fez uma pausa de cinco segundos e começou:

– É assim, as meninas do centro de dia levam-me a sopa. Eu como metade e guardo a outra para a noite. Depois como o prato principal, não sei o que é hoje, e como a fruta. A fruta é muito importante!

O motorista, vi pelo espelho retrovisor, esboçou um ligeiro sorriso. Naquele momento pensei: “Bem, é agora. Vai perder a paciência com a senhora”. Mas não. Fez a curva mais apertada, uma das existem quando estou a chegar à minha paragem, e respondeu:

            – Ainda bem. E que sopa gosta? Agriões? Caldo Verde?

           – Sabe, eu guardo a outra metade da sopa para a noite. Assim não tenho de cozinhar. Depois vejo um pouco de televisão e vou dormir – voltou a responder.

            – E ao outro dia depois de almoço, vai passear? – atirou o motorista.

            – Olhe depois meto-me no autocarro. O passe é uma maravilha, leva-me a todo o lado. Uma pessoa em casa não pode ficar, tem de apanhar sol. E é assim – contou novamente a senhora.

O que mais me impressionou foi o carinho, a paciência, a atenção do motorista em continuar com aquela conversa que já estava mais do que gasta. Insistia porque sabia que a senhora gostava de falar, nem que fosse para repetir a mesma ladainha. Provavelmente o homem já a conhecia de outras paragens, e o empenho de continuar com uma conversa que levava sempre ao mesmo lugar foi fantástico.

A minha paragem era a próxima. Toquei no botão, o autocarro parou e abriu as portas. Antes de sair lancei um último olhar ao motorista e à senhora. Ela estava a contar que à noite comia metade da sopa e que depois ia ver televisão antes de ir dormir. Aquela conversa fazia o dia da senhora de cabelo grisalho. E a atitude do motorista fez o meu.

6 comentários

    1. É verdade, Helena. Concordo contigo 🙂 e por ser tão raro este acto de ouvir é que este episódio me marcou. Muito obrigada pela tua leitura! Beijinho grande

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